A decadente e decrépita Bacia do Mercado

Familiar é o cheiro salobro da maresia que o mar faz fluir através dos canais. As águas de Santos se opõem ao poema do Guimarães Rosa, pois não dormem nunca, exalando sal de suas moléculas, lodosas como um monstro do pântano, vivo e que envolve pneus velhos, barcas carcomidas pela ferrugem, cascos de navios, pés de pato, cadáveres há muito esquecidos, narrando uma história contada no fio da faca que corta tanto cebolas frescas quanto buchos preguiçosos.

Tem de um tanto familiar o medo da grande caixa d’água da avenida Pedro Lessa e das gentes depositadas nos cantos de inspiração cavernosa da praça Iguatemi Martins, vista assim de soslaio numa massa única, num dia chuvoso de colchões encharcados perto das catraias que se destinam a Vicente de Carvalho. A lama entre os dormentes do caminho de ferro do trem que se contorce nos sons metálicos das manobras portuárias. A proximidade imponente do cemitério do Paquetá, bairro outrora nobre e que se tornou um arrabalde das sombras, mesmo à luz do dia onde, em um domingo silencioso e nublado, às vezes grassa a passar um 194 de meia em meia hora, que pelo seu vagar e vazio, lembra um bonde fantasma.

Eu amo o porto porque ele é sórdido.

cortazartrumpet.jpgcortazartrumpet.jpgÉ mais ou menos como diria o Cortázar a respeito de subir uma escada: “(…) começa-se por levantar aquela parte do corpo situada em baixo à direita, quase sempre envolvida em couro ou camurça e que salvo algumas exceções cabe exatamente no degrau. Colocando no primeiro degrau essa pequena parte, que para simplificar chamaremos pé, recolhe-se a parte correspondente do lado esquerdo (também chamada pé, mas que não se deve confundir com o pé já mencionado), e levando-a à altura do pé faz-se que ela continue até colocá-la no segundo degrau, com o que este descansará o pé, e no primeiro descansará o pé (Os primeiros degraus são os mais difíceis, até se adquirir a coordenação necessária. A coincidência de nomes entre o pé e o pé torna difícil a explicação. Deve-se ter um cuidado especial em não levantar ao mesmo tempo o pé e o pé).”

Para dar os primeiros passos é preciso andar. E, daí, não é difícil seguir à próxima etapa, que é flanar: um tipo de caminhar que se faz com a alma grudada nos pés.